Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica

 

SISMICIDADE HISTÓRICA

      

O território de Portugal Continental tem sofrido, ao longo do tempo, as consequências de sismos de magnitude moderada a forte, que resultaram muitas vezes em danos importantes em várias cidades e vilas do país, como o comprovam os diversos relatos históricos. O último sismo catastrófico que afectou o território do continente foi o sismo de 1 de Novembro de 1755, considerado por vários autores um dos maiores sismos de sempre (estimou-se a sua magnitude entre 8,5 e 9).

Portugal encontra-se perto da fronteira entre duas placas tectónicas, a Africana e a Euroasiática (Figura 1). Esta fronteira, genericamente designada por falha Açores-Gibraltar na sua extensão no Oceano Atlântico, apresenta uma razoável actividade sísmica associada à interacção das duas placas.            Pela análise dos estudos sobre sismicidade histórica observa-se que vários sismos tiveram origem nesta fronteira de placas afectando de um modo importante o território continental. Os epicentros destes sismos situam-se todos perto do Banco de Gorringe, localizado aproximadamente a 200 km a sudoeste do Cabo de S. Vicente. Na Figura 2 apresenta-se uma carta com a distribuição dos sismos históricos desde 33 a.c. até 1909. De entre os sismos que ocorreram perto desta fronteira de placas salientam-se os seguintes:

(i) o sismo ocorrido cerca de 60 a.C. que afectou as costas de Portugal e da Galiza e que foi seguido de um grande maremoto

(ii) o sismo de 382 d.C., também sentido em todo o território e na sequência do qual submergiram 3 pequenas ilhas que existiam em frente do Cabo de S. Vicente

(iii) o sismo de 24 de Agosto de 1356 que provocou grandes estragos em Lisboa

(iv) o sismo de 1 de Novembro de 1755 (Figura 3), sentido em toda a Península Ibérica, que provocou estragos muito importantes no Algarve e em Lisboa e que foi seguido de um grande maremoto cujo efeito se fez sentir em maior grau no Algarve e em Lisboa, e em menor grau ao longo da costa ocidental até Peniche.

 

O sismo mais recente que teve origem junto da fronteira de placas foi o de 28 de Fevereiro de 1969 (Figura 4) que, apesar de fortemente sentido, causou apenas ligeiros danos materiais.

Além dos sismos provocados pela interacção das duas placas, há a considerar também os sismos de origem local causados pela própria tectónica do território. Neste contexto podem salientar-se como zonas sísmicas mais importantes (ver Figura 2):

(i) o vale inferior do Tejo, onde tiveram origem os sismos de 26 de Janeiro de 1531 (um dos maiores sentidos nesta região, Figura 5), provavelmente também os de 1344 e de 13 de Agosto de 1899 e, por último, o de 23 de Abril de 1909 (Figura 6) que provocou a destruição total da vila de Benavente e para o qual está estimada uma magnitude entre 6,0 e 7,0

(ii) a região do Algarve, onde os sismos de Novembro de 1587 e de 12 de Janeiro de 1856 estão provavelmente associados à falha de Loulé e que provocaram grandes estragos no sotavento algarvio; o sismo de 1722 (Figura 7)que também provocou grandes estragos materiais e humanos desde o Cabo de S. Vicente a Castro Marim, teve origem no mar, próximo de Tavira, sendo portanto a sua origem diferente da dos anteriores

(iii) a região de Moncorvo, de menor actividade sísmica, cujos movimentos tectónicos estão associados à falha de Vilariça onde tiveram origem os sismos de 19 de Dezembro de 1751 e de 19 de Março de 1858; e a região de Batalha ‑Alcobaça, cujos movimentos tectónicos estão provavelmente associados à falha de Nazaré‑Pombal onde se pensa que tiveram origem os sismos de 1528 e de 21 de Fevereiro de 1890

(iv) associados a acidentes tectónicos tardi‑hercínios, o vale submarino do Sado, onde teve provavelmente origem o grande sismo de 11 de Novembro de 1858 (Figura 8) que atingiu uma intensidade IX (Escala de Mercalli Modificada) em Setúbal e provocou grandes estragos em várias povoações, e o vale submarino da Nazaré onde se deu o sismo de 26 de Dezembro de 1962.

 

Pela análise da carta da sismicidade histórica (Figura 2) é bem visível a “concentração” de epicentros na região sul de Portugal (tanto em terra como no mar) e na região do Vale do Tejo, em particular junto à cidade de Lisboa e à vila de Benavente. Pode observar-se a ocorrência de sismos importantes em 1017, 1344, 1512, 1531, 1597, 1748, 1757, 1899 e 1909. É evidente que a sobreposição de alguns destes sismos resulta da falta de informação sobre a correcta localização epicentral. Contudo, de acordo com o conhecimento actual, é possível afirmar que estes sismos ou foram originados no interior da própria região do VIT, ou foram originados no mar, aproximadamente ao largo de Lisboa. Nem de todos estes sismos chegaram até aos nossos dias relatos suficientemente fiáveis. Mas pode afirmar-se que todos eles produziram danos importantes na região do VIT.

O sismo de 1344 encontra-se mal documentado mas, de acordo com alguns relatos "soltos", parece que provocou danos importantes em Lisboa e muitos mortos. O primeiro destes sismos que vem descrito com algum pormenor, é o sismo de 26 de Janeiro de 1531, no qual  ficaram danificadas cerca de 25% das casas de Lisboa, 10% colapsaram e cerca de 2% da população morreu. O sismo de 1 de Novembro de 1755 deve ser dos mais documentados da história. Os seus efeitos foram sentidos até ao norte da Europa e provocou grande destruição nas regiões costeiras de Portugal, Espanha e Marrocos. Devido ao facto de ter tido origem no mar, gerou-se também um forte maremoto (“tsunami”), que provocou também grandes danos nas costas oeste e sul da Península Ibérica e no norte de África. Estima-se que, devido não só à destruição provocada pela vibração do solo, como também devido à acção do tsunami e aos vários incêndios que deflagraram em Lisboa, o número de mortos em Portugal tenha sido perto de 20000 (alguns autores acham que este valor está sobrestimado e propõem cerca de 5000 mortos). O sismo de 23 de Abril de 1909 atingiu uma magnitude inferior a 7,0 e foi o maior sismo originado em terra durante o Séc. XX. Ele foi gerado no sistema de falhas do Vale do Tejo, e teve o seu epicentro entre Samora Correia e Benavente. Ele foi sentido com uma intensidade máxima de grau IX a X (MMI) na região de Benavente, Samora Correia e Santo Estevão. Na região de Benavente, provocou a morte de 46 pessoas, 75 feridos, elevado número de desalojados e avultados danos materiais. Em Lisboa a intensidade máxima sentida foi de VI, causando apenas danos materiais.

 

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